Četvrtak, 6 Oktobra, 2022
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The Corpo Quebrada and Ecopoetics of the Commons / O Corpo Quebrada e as Ecopoéticas dos Comuns

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O Corpo-Quebrada e a Ecopoética dos Comuns

Nessa discussão, os participantes desenvolvem “corpo-quebrada” para representar uma filosofia e abordagem ecopoética, usando arte em um contexto de engajamento da comunidade. Os corpos periféricos das comunidades brasileiras nas quais as populações são marginalizadas pelas estruturas nacionais e locais, e os corpos afetados por sistemas de colonização. Porém, eles também possuem uma resiliência e adaptabilidade específica; flexível e implacável. Esse corpo oferece modelos para desenvolvimento futuro. O corpo-quebrada identifica aberturas para novas abordagens, e outline deficiências estruturais. O corpo-quebrada é o corpo dentro do comum, Gaia. Essa discussão usa o termo para se referir à vários corpos, e os vários pontos de ruptura e sistemas de cicatrização.

Adilson Siqueira: É um prazer estar aqui com vocês e conversar um pouco sobre o trabalho que a gente vem realizando já há alguns anos no contexto do Laboratório de ecopoéticas o ECOLAB, aqui da Universidade Federal de São joão del Rei. E vamos estar falando um pouco dessa nossa investigação sobre o Corpo-Quebrada no contexto das poéticas cênicas das mudanças climáticas e dos bens comuns.

Aneliza Rodrigues Prado: A gente pensa nessa discussão há muito tempo. É muito authorized poder abrir agora; sair do nosso grupo de pesquisa e poder abrir para tanta gente.

Patrick Veniali da Silva: Muito feliz que o Corpo-Quebrada está alçando voos, indo para outras regiões do planeta, e é isso gente. Vamos conversar porque temos muita coisa para ouvir.

Gabriel Augusto Liparini Queiroz: Então, Adilson, para começar eu gostaria de saber como você consegue contextualizar o Corpo-Quebrada. Você poderia dar algumas palavras para nós a respeito disso?

Adilson: Essa é uma ótima pergunta, Gabriel, obrigado. Sou ator de formação e emblem quando eu terminei minha graduação, meu primeiro trabalho um teatro muito baseado no teatro antropológico do Eugênio Barba, bastante conectado com essa questão do treinamento do ator. E aí a gente fez esse primeiro trabalho, que me tornou profissional, que period vinculado a um trabalho corporal. Então, desde sempre eu estive envolvido com a questão corporal.
Em função disso, eu fiz um mestrado em artes corporais e dança. Em seguida fiz um doutorado em pedagogia do movimento, onde eu fui entender toda essa sistemática do movimento, como o movimento funciona e tudo mais. Fui professional meu pós-doutorado também em pedagogia do movimentono Universität Mozarteum Salzburg: Orff Institut für Elementare Musik- und Tanzpädagogik, na Áustria. Ou seja, toda uma carreira toda trabalhando com o corpo. E em 2009, quando me tornei professor na UFSJ, eu precisava criar um projeto, e foi quando pela primeira vez eu juntei corpo com a ideia de sustentabilidade. Com essa questão da sustentabilidade, eu, automaticamente, fui para pensar e trabalhar a questão comunitária. A gente foi trabalhar aqui nos bairros de São João del Rei e Santa Cruz de Minas, originalmente, e depois na região basicamente nas periferias, certo? Basicamente, formada por pessoas periféricas, nesse sentido de grana, das condições da periferia brasileira em que as pessoas vão sendo empurradas por causa dessa especulação imobiliária e toda questão da exploração. E aí a gente começou a trabalhar dentro desse contexto de pensar a questão do corpo, da sustentabilidade em áreas periféricas, em comunidades periféricas.

Uma das primeiras coisas que a gente percebia nas comunidades aqui é que não existia justiça social. A cultura de paz period uma coisa também complicada. Entramos em yn, Santa Cruz de Minas, que as pessoas diziam que eram extremamente violentos. Fomos, inclusive, trabalhar em uma cidade que foi considerada durante um tempo a cidade mais perigosa e violenta do Brasil. Então não tinha uma cultura de paz, não havia justiça social para essas pessoas.

A questão da democracia no Brasil sempre foi muito dúbia, muito complicada na história. E esses jeitos de corpo que infelizmente não vão para o áudio, mas é esse lugar que, se você chegasse para as pessoas para falar em democracia, ou qualquer outra coisa, ela dava uma “gingada”, uma “equilibrada”. E isso foi uma coisa que a gente foi percebendo.
Nós podíamos perceber que a questão democrática não period muito clara, como eu falei. Então, eu começo a pesquisar a questão do corpo, aqui em São João del Rei, nesse lugar, ou seja: o corpo na periferia, o corpo na comunidade, um corpo que estava numa cultura de violência, em um lugar de muita injustiça social, onde a autodeterminação das pessoas estava pouco estimulada, vamos chamar assim. Não estou querendo dizer que chegamos para estimular e melhorar isso tudo, mas esse foi o nosso materials de trabalho. E nesse materials de trabalho, uma das coisas que a gente fazia period, ao participar dessas coisas todas, ir percebendo que tinha toda uma corporeidade ali. Que tinha todo um jeito, que não period simplesmente andar pela comunidade. Permanecer na comunidade implicava em um jeito de ser. Não é um jeito com o qual estávamos acostumados enquanto sudestinos do inside de Minas Gerais..

E foi a partir dessa corporeidade que ao longo dos tempos nós fomos trabalhando e desenvolvendo essa coisa do Corpo-Quebrada. Fazendo muitos treinamentos nas comunidades, muitas atividades com as pessoas da comunidade, ficando muito tempo mesmo na comunidade. A gente permanecia durante dias, às vezes, na mesma comunidade para ir entendendo de vez esse processo corporal, até que, já em 2016 e 2017, nós começamos a formular as primeiras ideias do que seria esse Corpo-Quebrada. E aí, eu convidei o Patrick e a Aneliza , que estão aqui, para começar a pesquisar diretamente vinculado com essa questão do Corpo-Quebrada, já pensando tudo isso da sustentabilidade, Patrick e Ane, se puderem me ajudar complementando…

Porque quando a gente fala sobre o Corpo-Quebrada: saber chegar, saber sair, como se portar em determinados.

Patrick: Vou começar falando sobre como que eu recebi essa palavra. Nesses dias, a gente estava conversando sobre essa expressão, o Corpo-Quebrada, e como ela não é somente “corpo que se movimenta”… É muito mais!

Bom eu venho de uma periferia onde a gente precisa saber andar, precisa saber perceber as coisas ao nosso redor para a gente aprender a lidar com as coisas que a gente vê todos os dias. Não é muito fácil não. Quando eu vou para outra cidade, uma cidade mineira onde eu percebo essas mesmas presenças, essas mesmas características em um lugar que, para mim, seria um lugar do inside de Minas Gerais, eu percebo essas mesmas situações em São João del-rei: uma periferia de pessoas negras, pessoas que não têm dinheiro, com baixa de qualidade de vida.

Quando veio para mim essa ideia de Corpo-Quebrada foi um tanto chocante. Porque na minha cabeça vieram tantas informações, tantas possibilidades: o corpo em si, o corpo dentro desse espaço que por si só já é um espaço quebrado– quebrado fisicamente, mentalmente, psico geograficamente — “um espaço corpo fissurado”. Quando esse termo veio para mim, é muita coisa que a gente consegue pensar dele. tudo isso que a gente fez noECOLAB, todos esses movimentos, todo esse processo, essas derivas, visitações, essas conversas que a gente teve com as pessoas… Eu acho que “Corpo-Quebrada” é mais do que um termo, é uma pergunta: “o que é um corpo?” O que é o corpo inserido em determinado lugar?.

Aneliza: Quando a gente viveu o processoestávamos fazendo várias coisas, fazia esse processo de deriva, desse andar errante, do corpo que erra para poder conhecer e and so on. Porém, nós estávamos fazendo isso sem saber exatamente o que estávamos fazendo.

O nome Corpo-Quebrada, depois de institucionalizado, quando o meu corpo voltou para aquele lugar, com a sensação de Corpo-Quebrada, sabendo o que estamos fazendo e com a sensação actual de que estamos aqui para isso, fez muito sentido para mim. Saber estar ali em uma postura diferente, com um tom de voz diferente, abordagens diferentes que eu não teria com outras pessoas, que construímos estando ali naquele lugar.

Por exemplo, na Rua do Ouro. Nós tínhamos que sair… Às vezes estava ensolarado, mas a gente tinha que sair pensando se iria chover ou não. Então a gente tinha que estar preparado para chegar lá no nosso ponto de encontro e estar chovendo muito e não ter ninguém. Ou a gente saia enquanto chovia e chegava enquanto estava ensolarado e com um monte de gente. E tínhamos que estar prontos para aquela situação em específico que a gente construiu vivendo naquele lugar. Depois, a gente consegue fazer esse hyperlink com a vida, de permanecer e tudo mais…

Eu acho que o Corpo-Quebrada é mais que um termo, sim. Igual a gente estava falando, é uma filosofia. Nós escolhemos viver desse jeito… A gente não escolhe, mas a gente se adapta… A gente não se adapta!

Patrick: Essa ideia de que a Arte, por si só, já é um conhecimento independente dos outros. Uma coisa que eu posso perceber desse processo todo é que geramos um conhecimento através da efficiency, através dessa arte, da arte performática. E a gente deu um nome para ele, que é o Corpo-Quebrada. Porque quando a gente fala sobre o Corpo-Quebrada: saber chegar, saber sair, como se portar em determinados… Nós já fazemos isso em diversas situações ao longo da nossa vida. A gente performa diversas vezes diferentes, em diversos contextos, o tempo todo.

Quando a gente dá um nome para isso, quando colocamos esse termo: “O Corpo-Quebrada”, dá uma ênfase maior, dá uma consciência para essa ação. a gente dá consciência para o que estamos fazendo. Eu acho que essa consciência é muito importante. Trazer essa ideia, esse Corpo-Quebrada para uma comunidade que já performa diversas vezes, o tempo todo, em vários contextos… trazer esse termo para essas comunidades,-e eu também me insiro nessa ideia de comunidade-, e com isso querer trazer consciência para esses corpos

Adilson: Eu só queria fazer uma complementação. Acho que a ideia não period tanto de nós levarmos algum tipo de consciência para os corpos das pessoas. Eu sempre vejo muito a ideia do Corpo-Quebrada como aquela ideia que só porque você vive ali. Ninguém precisa te ensinar. É como tocar samba em uma escola de samba. Você fica ali do lado, ouvindo, tocando… Quando vai ver, está tocando. O Corpo-Quebrada é mais ou menos essa mesma ideia. O Corpo-Quebrada é muito mais trazer para si. Trazer para nós aquilo que na comunidade já está pronto.

Porque as pessoas que estão nas comunidades já estão nas suas quebradas com seus corpos na quebrada. A gente é que não estava, porque a gente period o “corpo estranho” chegando ali. Então, period muito mais a gente que estava adquirindo certa consciência, porque no lugar em que a gente estava, isso já estava posto. Eu sempre vi o Corpo-Quebrada por esse lugar e é nesse lugar que eu entendo que como já estava ali, o que falta muitas vezes é compor junto para pensar esse corpo e todas as possibilidades que ele tem de mudança, para uma mudança em bem do comum. E é aí que eu vejo a conexão remaining que eu fazia com o Corpo-Quebrada, com a ideia da sustentabilidade, e agora, mais recentemente, com essa ideia da mudança climática. é aí que eu vejo as coisas.

Acho que com isso nós introduzimos o tema que vai se seguir que é falar sobre Corpo-Quebrada e os comuns.

Como, envolvendo as pessoas conseguimos envolvê-las com as reflexões sobre os problemas que estamos criando no Antropoceno? Fazendo as pessoas refletirem através da nossa arte, com a imersão e a participação do público dentro do nosso teatro e da nossa obra artística, para que esse público comece a olhar um pouco sobre a maneira como ele age no mundo.

Gabriel: Muito bom. Agora a gente precisa saber como a obra interage ou expande ideias ou discursos de ecologia, meio ambiente, campos climáticos e impacto entre o humano e o não humano? Pode ser um exemplo de um projeto, uma filosofia ou uma plataforma…

Adilson: Eu acho que a gente é uma abordagem, um modo de conhecer o mundo, uma epistemologia. E essa forma de conhecimento é o que eu chamo de conhecimento ecopoético, que é esse conhecimento que entende o mundo como sendo Gaia, como sendo Pachamama. A Terra como um grande organismo vivo e nós como parte desse organismo. A partir desse lugar, estou muito preocupado com: como a gente pode artisticamente ver a nossa maneira de agir no mundo de forma a impactar menos? Como, envolvendo as pessoas conseguimos envolvê-las com as reflexões sobre os problemas que estamos criando no Antropoceno? Fazendo as pessoas refletirem através da nossa arte, com a imersão e a participação do público dentro do nosso teatro e da nossa obra artística, para que esse público comece a olhar um pouco sobre a maneira como ele age no mundo, com vistas a diminuir seu impacto nesse ecossistema humano. Dentro dessa filosofia é [preciso] entender Gaia tanto como esse ecossistema quanto como um bem comum.

Mas esse corpo humano do sul international, como diria o Boaventura de Sousa Santos [e a antropologista Maria Paula Meneses], esse pessoal tem uma característica muito interessante, que, para mim, é a característica que nos leva a pensar o Corpo-Quebrada. Então que nós criamos essa plataforma, que é uma plataforma para convidar pessoas e envolver pessoas dentro dessa nossa plataforma para que elas sejam disseminadoras.

Gabriel: Muito bom! Agora, eu queria saber um pouco melhor como se dá essa relação entre o humano e o não-humano dentro do impacto ambiental, por favor.

Adilson: Não tem como a gente, como intelectual aqui ao sul, não considerar o nosso grande pesquisador, o Eduardo Viveiros de Castro. Ele tem uma abordagem que, para mim, se enquadra muito na ideia do comum. Nessa ideia do comumem que existem os comuns universais, os comuns particulares, and so on, e dentro da ideia common dessa que forma um pouco a epistemologia, desse modo de pensar, que contribui para que a gente forme essa plataforma que eu estive falando, uma das coisas que está extremamente dentro desse modo de pensar é o que o Viveiros chama de multinaturalismo. Que eu acho que é uma forma muito interessante de você ver os grupamentos humanos. A gente pensa muito na questão do multicultural, mas essa questão tem uma coisa que separa muito as culturas e a única coisa que ela acaba fazendo é separando comuns em “cada um no seu pequeno comum A proposta do Viveiros de Castro, é muito authorized, pois ele pensa o seguinte: ”na verdade, a gente tem que pensar de uma maneira que é o multinaturalismo”. então uma multiplicidade de naturezas que estão dividindo o nosso espaço enquanto sociedade humana e não-humana.

Como nós somos comuns, nós somos parte dessas outras coisas que também somos nós.

Então, quando eu penso do ponto de vista da efficiency, eu fico pensando em um texto do Guimarães Rosa, um pequeno conto dele que se chama “Meu Tio o Iauaretê”. E nesse texto o Guimarães Rosa fala da história de um caçador de onças. Conforme a gente vai apontando [lendo] o personagem vai apresentando como ele faz para caçar uma onça, como ele é sorrateiro na caçada de uma onça. E o que que acaba ficando interessante No no ato da caçada, o caçador, ele se transforma em onça. Porque a estratégia que ele tem para conseguir caçar a onça, é ser a onça. Essa ideia eu acho que é muito authorized. E essa ideia traz uma coisa que eu vi uma vez no espetáculo feito por um ator chamado Cacá Carvalho, em que ele ia, às vistas do público, se transformando em uma onça. Ele ia criando, no jeito dele interpretar, ele ia fazendo garras e and so on. E ao remaining, eu já não me lembro mais se ele consegue ou não caçar a onça, a questão que ficava é: ele caçou quem? A onça ou ele mesmo? Esse lugar que eu vejo que é uma coisa multinaturalista.

Esse exemplo está posto no corpo. E é aí que eu vejo o Corpo-quebrada. Eu estou pensando Corpo-quebrada para tratar das mudanças climáticas, eu estou pensando nesse corpo que está totalmente conectado com o ecossistema inteirinho onde ele está posto

Patrick: Eu adorei esse negócio do caçador ser a onça, e a onça ser o caçador, e quem é que tá caçando quem né. E essa idéia de caçar corpo… Eu sempre penso nessa ideia desse corpo, nesse ecossistema, que a princípio ele não consegue dar conta de todo esse multinaturalismo que está ao seu redor, por pura e simples fisicidade é muita coisa, muita informação, muitas possibilidades. E aí quando a gente entra nesse lugar, prepara esse corpo, vai para, não importa o lugar que seja, e se deixa sentir, se deixa perceber, nos afetos, na amplidão daquele momento, como a gente consegue entender essa história do caçador e da onça. A gente acaba se tornando a onça, a partir do momento que a gente se deixa, não é se deixar, mas expõe esse corpo a esse tanto de afeto, a gente acaba se tornando essa onça, a gente acaba sendo sorrateiro mesmo, no momento de perceber, perceber tanto através do olhar quanto da audição, o movimento. O movimento que a rua faz, o movimento que o ambiente nos afeta mesmo.

Adilson: Posso tentar falar alguma coisa ainda dentro do Viveiro de Castro? Eu acho que esse Corpo-Quebrada na natureza, ele é aquele corpo que foge de uma ideia teológica de desenvolvimento. Essa frase é do Viveiros. Essa ideia teológicasobre pensar na natureza Quando você está na natureza, quando você está mesmo na “natureza selvagem”, vamos só usar essa expressão, uma coisa acaba, que é essa coisa teológica do desenvolvimento. Que é uma insaciabilidade infinita do desejo. É um desejo infinito e insaciável de ter algo que você não tem. E o corpo, quando ele está posto dentro de uma situação dessa, você tem um desejo que tem que ser saciado. Saciou esse desejo? Você não precisa ficar querendo mais, você precisa garantir esse seu desejo, e é nisso aí que eu entro, em que eu vejo a ponte com o Corpo-Quebrada.

Trabalhar com a ideia desse Corpo-Quebrada ajuda a gente com essa questão do desejo. Desse ser desejante o tempo todo. Isso é fruto de toda essa ideia do antropoceno [rumo a] uma pragmática da suficiência. Do que você precisa? Você precisa ter o suficiente para viver. Depois de você ter o suficiente para viver, de hoje para amanhã, você não precisa ficar acumulando. Você foge daquela coisa que o capitalismo é mestre, que é fazer você infinitamente desejar aquilo que você não precisa. Eu acho que a parte de um projeto artístico, de um projeto de propor uma reflexão sobre o que o corpo pode fazer enquanto corpo cênico, é trazer essa ideia de pensar-se em meio a um ecossistema formado por muito mais que carros, parafusos, web e aço e se colocar dentro dessa natureza; e ter uma pragmática da suficiência, como diz o Viveiros de Castro.

Pragmática da suficiência é o que o Corpo-Quebrada pode nos levar a refletir. Isso para mim é um programa, essa para mim, é uma ideia.

Precisamos trabalhar no nosso déficit de natureza. Perceba que esse déficit está gerando em nós uma coisa que não precisamos. O desejo de ter, ter, ter, desenvolver, desenvolver; coisas que você não precisa. E aquilo que nós temos é a natureza, está do lado da sua casa As pessoas desejam o que não têm.

E o pior agora é que esse “o que não tem” vem de um mundo digital. O corpo não precisa mais ser Quebrada, o corpo precisa ser digital.

Patrick: O louco do Corpo-Quebrada, realmente, é esse contraponto à sociedade de consumo. É bem claro, para mim, pelo menos. Eu acho importante falar essa ideia do “para mim” porque eu acho que quem mais sofreu mudanças nesse processo todo fomos nós que estamos participando. Porque, esse processo nos levou a pensar tantas outras coisas, principalmente nessa ideia da sociedade de consumo

Eu acho que é uma das coisas mais importantes que o Corpo-Quebrada, nesse processo que eu estou, me proporcionou, foi pensar o quanto somos uma sociedade de consumo mesmo, até… A gente estava há pouco tempo discutindo sobre a questão do teatro, de o que que é o teatro e como está se dando hoje em dia. O teatro também está se tornando a promoção de espetáculos vídeos e tudo mais. Está se tornando também esse consumo, entrando dentro dessa categoria, dessa sociedade de consumo. Você não vê uma cena hoje em dia para pensar, raciocinar sobre o que você viu. Não! Você vê porque você precisa consumir aquela coisa ali.

Adilson: Porque a gente só passa a ser para o outro um complemento de um “like”, por exemplo.

É interessante a gente perceber que o teatro vai viver agora uma armadilha muito interessante com essa coisa do teatro feito digitalmente, por essas novas plataformas. Porque até que ponto o teatro vai se descorporeizar? Se tem uma coisa, nos meus doze anos como professor universitário de teatro, que eu tenho percebido é a dificuldade dos alunos de fazer trabalho de corpo. Cada vez mais o corpo está deixando de estar presente. Então, é por isso que eu acho que cada vez mais a gente tem que trazer corpo. E tem que trazer o corpo daquela pessoa, e não o corpo desejado.

Gabriel: E o que poderia ser o ecoteatro para essa década? o que você pensa sobre o ecoteatro para uma próxima década? Para um momento futuro…

Adilson: Para mim, esse ecoteatro, essa ecoperformance, essa ecocena que eu estou falando… Esse teatro ecopoético… Ele só tem uma coisa, que é: tratar das agruras, dos sofrimentos, das angústias que as pessoas têm quando estão de frente com essas questões climáticas. Aqui no Brasil, são as mudanças que estão acontecendo no clima como um todo, mas que boa parte do que está contribuindo para esse climaé a mineração. Jogam a culpa disso na “velhinha.” E acho que nosso teatro é mostrar a angústia da velhinha, e falar assim:

-”Mas eu não tenho mais como economizar luz e nem água, porque menos do que isso, vai dar menos de um banho por dia! Menos do que isso, não vou nem mais conseguir comer.”

Enquanto isso, a indústria, o agronegócio e and so on, a mineração está consumindo muita água… Eu acho que o teatro que a gente tem que fazer é para falar sobre o corpo dessa senhora, desse senhor, dessa pessoa que está ali, sendo impactada por isso tudo.

Aneliza: Eu sempre fico pensando nesse lugar de saber sair, saber chegar, saber sair, saber chegar. Eu acho que o “chegar” e o “sair” não são tão complicados como o saber permanecer. Saber permanecer é muito mais complicado. E aí, vai permanecendo, você vai arrumando formas de permanecer. Formas de permanecer… Aí, olha eu chorando… Eu não consigo… Formas de permanecer no calor, formas de permanecer…

Porque a casa… Ta tudo pegando fogo, sabe? E a gente continua aqui…

Para mim, esse ecoteatro, essa ecoperformance, essa ecocena que eu estou falando… Esse teatro ecopoético… Ele só tem uma coisa, que é: tratar das agruras, dos sofrimentos, das angústias que as pessoas têm quando estão de frente com essas questões climáticas.

Adilson: Essa forma de permanecer que você coloca, ela é muito interessante porque já que nós somos parte desse comum, e, qual que que é o comum? Gaia, Pachamama, essa nossa casa. E a gente é só ser transitório nisso aqui. Pelo menos enquanto esse “nós” que conhecemos formos só esses seres que nós somos, a gente é só transitório.

desde a infância, lá na escola, aprendemos a saber chegar no mundo para consumir o mundo. Para ver o mundo como lugar de consumo. Para ver o mundo como lugar onde a gente pode ir, pegar, e satisfazer as nossas necessidades. E nunca parar para pensar que tem a necessidade daqueles outros corpos que estão ali, conosco. E vamos aprendendo que isso é regular.

E se torna regular ganhar o máximo de dinheiro possível, assim como period o regular consumir o máximo possível, assim como period regular fazer tudo aquilo que o capitalismo foi ensinando a gente. Desse jeito a gente precisa desaprender para conseguir permanecer. Esse é o outro lado authorized do Corpo-Quebrada: o saber sair. Que é a hora que nós morrermos, que a gente saia e sejamos , pelo menos, um fruto para nossos próximos.

Tipo antigamente, tinha aquele ditado: “você tem que ter um filho, escrever um livro e plantar uma árvore.” Não sei se precisamos fazer mais filhos, fica para critério de cada um mas acho que escrever um livro é sempre bom. plantar uma árvore, acho que todo mundo tem que plantar, no mínimo, dez. Porque aí a gente sai authorized. Esses dias mesmo eu plantei uma árvore.

Gabriel: Araucária?

Adilson: A pessoa que estava junto lá, me ajudando, falou:

– “Mas, por que você vai plantar isso, se o primeiro fruto dessa árvore só vai vir daqui à vinte ou trinta anos?”. E eu falei:

– “Daqui a vinte anos eu posso não estar aqui, mas alguém vai. Então eu vou sair deixando uma araucária.”

É como, mais ou menos, “quem planta tâmaras não come tâmaras”. Mas se ninguém plantar, quem chega, nunca vai saber o que são tâmaras. Então eu acho que a analogia com o que você falou, Ane, o saber sair também tem a ver com o saber morrer e a nossa morte ser algo que contribua para esse ecossistema, não que também, ao morrer, levemos alguma coisa embora conosco… Que levemos um pouco desse ecossistema. Dessa nossa Gaia, dessa nossa mãe. Eu acho isso, a analogia um pouco com o Corpo-Quebrada.

Aneliza: É… Eu acho também. Faz sentido para mim. Permanecer é difícil. E a gente é obrigado a permanecer… Ai… É difícil…

Adilson: Então eu vejo que o Corpo-Quebrada, para mim, tem essa ideia. Ele tem essa ideia básica do saber chegar, saber permanecer, saber sair, esse corpo de quem anda na quebrada… Só quem anda de noite em um lugar ermo sabe o que é andar de Corpo-Quebrada. Ou só quem anda de noite e chega em um lugar que não conhece sabe como é andar em uma quebrada. Aí, é esse andar que eu fico pensando. É esse andar dos povos do sul, de nós. Esse andar que não é aquele andar de quem já está em uma posição authorized, a a polícia cismar com a sua aparência Porque por princípio, esse é o lado também que vai ser vítima da mudança climática. Porque a tendência é: Se um cara negro, por exemplo, não conseguir arrumar uma profissão authorized, não vai conseguir algumas entradas. Vai acabar morando na beira de um morro qualquer, ou embaixo de uma rocha que pode cair a qualquer momento, em uma favela qualquer, perto de um lugar muito alagado, em um lugar de péssima qualidade que vai sofrer totalmente pelo calor, pelo frio. Ele é a grande vítima. Ele é uma das grandes pessoas afetadas pela mudança climática. Além disso, ele vai ser empurrado para viver em uma área que também vai ser mais afetada pela mudança climática

 

Gabriel: Como artistas, de Minas, do Brasil e da América do Sul, qual a urgência ou desejo para um movimento de ecoperformance ou ecoteatro?

Adilson: Essas pessoas procuram se destacar desse lugar, se colocar em um outro lugar de uma maneira neocapitalista, [sem] ter nenhum respeito [pelo] bem comum, como o rio, a montanha… As tragédias que a gente viveu aqui também foram feitas por pessoas que são acionistas de empresas que não estão nem aí para o [lugar] onde estão ganhando dinheiro. E então fica só uma coisa que é o deus mercado

Esse deus que está tendo aí agora, entre boa parte dos sudestinos, é um deus que não está nem aí com Gaia, que parece que não se preocupa com a ideia de Gaia.

Então, eu acho que o lugar que a gente tem para fazer ecopoética é um pouco para pensar sobre esse encanto. Pachamama é o nosso Deus, porque só existe uma. É forte o que eu vou falar, mas vida só existe uma e só vivemos essa vida em um lugar. Aqui. Nunca, ninguém me provou que existe qualquer outra ideia. Portanto, acho que o nosso grande Deus tem que ser Pachamama. É Gaia, mais do que tudo. Vamos ver a natureza como um bem comum, do qual somos parte e se ela, natureza, sobreviver, todas as nossas crenças, todos os nossos ideais, todas as nossas deidades, elas vão poder existir. Acho que isso é lugar de fazer ecopoética por aqui. E, fazer uma arte que seja ecopoética, a urgência é chamar a atenção para esse tipo de coisa. Porque se já está ruim, vai ficar cada vez pior… E não vai adiantar a gente falar “meu Deus, meu Deus, meu Deus!” e correr para dentro da igreja. O único lugar é a natureza. E para isso, é na técnica que nós temos que acreditar, que nós podemos começar tecnicamente a fazer uma vida de uma forma diferente, e, acho que a arte como lugar de produzir simbolismos, de produzir imaginários e mundos imagináveis, é um lugar authorized para uma ação que envolva as pessoas para pensar um pouco sobre isso.

Patrick: Eu acredito que um dos papéis da arte é mais perguntar do que responder. E, talvez, somente fazer com que nós pensemos nas nossas condições de vida, na forma como nos relacionamos, na forma com que percebemos essa estética do mundo

Aneliza: É muito gratificante estar aqui nesse lugar, hoje, falando a respeito do nosso processo. Em um momento que é muito difícil a arte ser reconhecida como meio de comunicação E ter o nosso trabalho reconhecido é muito authorized. Foram longos anos de pesquisa… três… Quatro anos agora, com a pandemia, de pesquisa, e mesmo na pandemia a gente continua pesquisando a nós mesmos. E vamos continuar, pois é dessa forma que a gente sobrevive, encontra forças para poder continuar.

Para ouvir a versão integral dessa discussão em Português, clique aqui.



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